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DEVE SER ASSIM

Das necessidades: físicas e espirituais. Pergunta: Quem precisa de mim? A carta veio de longe, pacote embrulhado com barbante de pão, bilhete no prego da praça matriz, aviso no feltro verde da escola, cartaz no lambe-lambe no poste sujo, batom barato no espelho do bar, poema rabiscado no guardanapo do beijo, linhas nuas do avião de papel, barquinho náufrago na banheira alheia, diário com garranchos e penas úmidas, perfil dos cansados da noite, encontro volátil de desejo, tesoura cega de pontas tortas e laço com pensamentos de curvas azedas, além do tempo... Tudo junto, no olhar da vida. No infinito do instante. Veloz e passageiro. Pergunta: Quem precisa de mim? Foto no álbum das dores, liberdade de pássaro dolorido, sombra na rua escura em movimento, silêncio desordenado de vozes e vento, desencontro no espaço, natureza frágil, corpo tatuado, relógio das horas partidas e morte. Pergunta: Quem precisa de mim? Eu, talvez. A carta veio de longe. Veio e ficou: no infinito do instante., além do tempo.

João Scortecci

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ALEXIA, A MENINA DOS OLHOS / JOÃO SCORTECCI

Eu sou mesmo uma lesma. Ando sobre o abdômen e gosto de coçar o umbigo. Alexia fez contato no ano passado. No mês de setembro. Escreveu: Quem é você? Apenas isso. Não quis bloquear, de pronto. Pensei, na época: pode ser uma autora procurando informações sobre publicação de livro, algo assim. Escrevi: Bom dia. Diga! Silêncio. Alguns dias depois outra pergunta: você é editor de livros? Sim. Respondi. O nosso monólogo continuou igual: vazio e pobre. Em novembro ela escreveu, finalmente: Meu nome é Alexia. Insisti, então: Diga! E assim ficou: silêncio cruel. Mostrei o papo cabeça para um amigo hacker, que no passado, foi um soldado do crimes cibernéticos. Depois, do nada, encontrou um amor, uma Juíza Criminal, alguns anos mais velha que ele e, então, entrou na linha. Ajustou-se! Hoje ele trabalha para um escritório de detetives investigando fraudes, golpes e adultérios. A sua história virou livro e no lançamento – num barzinho da Zona Leste de São Paulo - lotou de ciberpiratas. Confesso: foi divertido. Conheci no lançamento o “B” e também a “Flor”, dupla de hackers da pesada. Famosos. Pedi uma foto com eles: "No flash!" Meu amigo hacker olhou as mensagens de Alexia e me disse, de pronto: Parece zoada de robô! Deleta! Fiquei triste. Até então Alexia era prioridade na ordem do dia. Lendo sobre robôs na Internet fiquei sabendo que eles fazem de tudo: comentam posts nas redes sociais, atendem clientes, desafiam adversários em jogos online. A atividade deles é tão intensa que chega a dominar mais da metade do fluxo da internet. Seu comportamento é tão semelhante ao dos humanos que fica cada vez mais difícil saber se estamos interagindo com uma pessoa ou uma máquina. Escrevi, então: Alexia você é um Robô? Algumas horas depois ela respondeu: Sou uma máquina inteligente! Insisti: O que você quer de mim? Perguntei. "Nada". Respondeu. Você é uma lesma! Anda sobre o abdômen e não sabe interagir. "Um inútil". Agradeci - educadamente - e deletei nossas frações. Ontem, curtindo os netos, num almoço de família, alguém gritou: Alexia! Alexia! E, do nada, as crianças da casa, todas, olharam juntas, na mesma direção. Sincronia cibernética, algo assim. Já disse: gosto de coçar o umbigo. E fazer do tempo os meus pecados. 

João Scortecci


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O SENTIDO DA VIDA É A PROPRIA VIDA / JOÃO SCORTECCI

Não conheci pessoalmente o escritor e psicanalista italiano, nascido em Milão, radicado no Brasil, Contardo Calligaris (Contardo Luigi Calligaris, 1948 - 2021). Vez por outra lia sua coluna na FOLHA e nelas encontrava - sempre - assuntos interessantes e pertinentes. Anotava. Hoje, 30 de março de 2025, data de 4 anos de sua morte, aos 72 anos de idade. Nas minhas anotações encontrei nota do seu entendimento sobre o sentido da vida. Segue: "O sentido da vida é a própria vida. Isso pode parecer uma total trivialidade - mas, para a maioria das pessoas, é um escândalo. Mas pouquíssimas pessoas conseguem viver pensando que o sentido da vida está na vida e, vou dizer mais, é a própria vida". No romance “O conto do amor” (Companhia das Letras, 2008), Contardo Calligaris, conta a história da visita de Carlo Antonini, psicoterapeuta italiano que vive em Nova York, ao convento de Monte Oliveto Maggiore, fundada em 1313 por São Bernardo Tolomei (1272 - 1348), na Toscana. Ali, Carlo Antonini, depara com algo inusitado: a figura do jovem São Bento, pintada em um dos afrescos da abadia, é parecida com seu pai, que havia morrido doze anos antes. Isso o remete ao próprio motivo de sua ida à Itália: uma estranha conversa que ambos tiveram pouco antes de o pai morrer, quando este revelou ao filho, em tom de confissão, que em outra vida teria sido ajudante do pintor maneirista Sodoma (Giovanni Antonio Bazzi, 1477 - 1549), justamente o autor daquelas imagens. Incrível. Quando adolescente, ainda morando em Fortaleza, minha mãe Nilce, médium, procurou-me e disse: Filho, eu andava preocupada com você. Na verdade aflita. Essa noite eu tive uma visão e um espírito de luz veio e revelou: “Não se preocupe com o João Ricardo. Ele está bem. O seu espírito é forte e tenaz. Ele é Ricardo Coração de Leão”. No início dos anos 2000, já morando em São Paulo, com a ajuda de uma amiga espírita fiz várias seções de regressão espiritual, técnica terapêutica que visa ajudar a pessoa a se desligar de situações traumáticas do passado. Confesso: ajudou-me, muito. Durante anos convivi com os meus heterônimos espirituais. Na época revisitei três outras vidas passadas: Na primeira era um velho agricultor de uma tribo das margens do Rio Nilo, norte do Egito, na segunda um comerciante de especiarias no porto de Vila Velha, final do século XIX, no Espírito Santo e na terceira fui Ricardo I, Ricardo Coração de Leão, guerreiro e líder militar, Rei da Inglaterra de 6 de julho de 1189 até 6 de abril de 1199. Ricardo I morreu de ferimentos provocados por uma flecha que o atingiu no ombro, em abril de 1199. Nas três regressões - não sei a razão - vivenciei a morte física. No Egito fui picado na perna esquerda por uma cobra Naja haje, em Vila Velha, envenenado no Convento da Penha e no corpo de Ricardo I, alvejado por uma flecha. O que ficou: o veneno da cobra adormecendo o meu corpo, as minhas entranhas fervendo com o veneno do cálice e a dor no peito alvejado pela flecha. Depois de morto e acordar do transe: paz, silêncio, luz e imensidão. Ainda sinto medo de cobras, bebidas exóticas de sangue e flechas no coração. Apenas isso. Isso, talvez, explique o sentido da vida, da própria vida: trivialidades da alma. 

João Scortecci


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FLORINDA BOLKAN E O CACO DE VIDRO NO PÉ / JOÃO SCORTECCI

O Eu menino era danado. Danadíssimo. Mamãe Nilce – merecidamente – adorava puxar e torcer as minhas orelhas, com força. Puxava com propriedade e gosto. Aos 11 anos de idade, talvez 12, eu andava espiando, pelo buraco do muro do quintal, o corpo nu da menina moça, que, todo final de tarde, banhava-se com cabaça e água fresca, trepada na tampa do poço da casa vizinha. Puxava água com a bomba de braço e banhava-se de amor. Magrela, olhos negros, da cor de jabuticaba, parecia, sempre, estar no cio. Cabelos curtos, à la “Rita Pavone”. Quando andava, empinava a bunda vazia de carne, além da conta. Sabia que estava sendo olhada pelo buraco do muro, mas parecia não se importar com a tara do olheiro intruso. Sonhava ser atriz, morar no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro e ser, um dia, mais famosa que a atriz cearense Florinda Bolkan. Florinda morou em Fortaleza e depois no Rio de Janeiro, antes de se mudar para a Itália, em 1968, e fazer carreira de sucesso no cinema. O que se sabe é que andou ali pelo bairro, no início dos anos 1960. O buraco do muro era miúdo, e nele, cabia um olho por vez. Com o tempo a menina moça improvisou cantoria, dança sensual e até rebolado. Numa tarde de calor dos infernos, com o dedo apontando para o buraco quente - finalmente – chamou-me para a briga. E eu fui. Subi no muro de pronto, com a ajuda de um tambor velho de querosene. Pulei e caí - em cheio - num campo minado, apinhado de cacos de vidro. Um caco afiado, pontudo, entrou no calcanhar do meu pé direito. Gritei de dor. Sangue. Rita Pavone, de deboche e mangação, gritava eufórica, do alto da boca na cacimba: “Te peguei!”. Pulei de volta o muro e corri, em disparada, até a mamãe Nilce, que pedalava a mil por hora, no terraço da varanda, a sua incrível máquina de costura Singer. “Santo Deus! O que aconteceu?”. “Furei o pé com um caco de vidro!”. Papai Luiz, que havia acabado de chegar do trabalho, perguntou-me: “Qual foi a danação desta vez?”. Silêncio. Papai desconfiava que eu andava espiando o banho da vizinha dos fundos, pelo buraco do muro. Mamãe Nilce tentou tirar o caco de vidro do meu pé, mas papai Luiz, interveio: “Não”. “Agora não!” “Espera um pouco.”. “Quem sabe - desta vez - ele aprende a não fazer danação!”. Curativo e dois dias de castigo. Rita Pavone, algum tempo depois, mudou-se para o Rio de Janeiro. Foi o que me disseram. Nunca mais soube dela. Escafedeu-se! O buraco do muro foi fechado e ainda, de reforço, ganhou uma pintura de cal. Quem teria feito o serviço? Desconfio. Alguns dias depois o cenário do crime era outro. Tudo havia mudado. Até o tambor velho de querosene havia sumido. Ficou: a cicatriz, o grito de dor e o calor das orelhas puxadas no tempo. Viver na Fortaleza dos anos 1960 era perigoso. Perigoso e bom.  

João Scortecci


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AUGUSTO DE CAMPOS E A INFOXICAÇÃO EM TEMPOS DE IA / JOÃO SCORTECCI

Um dia de cada vez. Lendo sobre o uso e aplicação de ferramentas de Inteligência Artificial na literatura, encontrei algo do outro mundo – literalmente. Já chegamos lá? Talvez. Estava trabalhando numa apresentação para a Abigraf – Associação Brasileira da Indústria Gráfica, intitulada “O produto livro – Das responsabilidades da Indústria Gráfica”, quando dei de cara com um artigo do outro mundo, em que se dizia que um centro espírita estava usando IA, para se comunicar com pessoas que já haviam morrido. Conversas do além, algo assim. Gosto do assunto – muito – o que me obrigou a ler o artigo inteiro. Faz parte. Aqui com as almas penadas da literatura: já imaginaram incorporar uma identidade IA? Receber um mix de escritores malditos, concretistas, modernistas e parnasianos? Doideira! Verdadeira infoxicação literária. Descobri, ainda, que a palavra "infoxicação” é a junção das palavras "informação" e "intoxicação", conceito concebido pelo físico espanhol Alfons Cornellade, para designar a situação em que uma pessoa tenta receber e analisar um número de informações muito maior do que seu organismo é capaz de processar. Dizem – não sei se é verdade – que um ser humano tem a capacidade máxima de ler 350 páginas por dia, caso faça apenas isso o dia inteiro! Desconfio. Já o volume de informações que recebemos diariamente pela Internet é de cerca de 7.355 gigas, o equivalente a bilhões de livros! Lendo sobre os 94 anos do incrível escritor Augusto de Campos e o lançamento do seu livro “Pós Poemas”, algo me chamou atenção – além da conta – no belíssimo texto escrito pelo jornalista Claudio Leal. No olho do texto, chamado de resumo: “Augusto de Campos, principal escritor brasileiro vivo!”. Algo assim. Augusto merece todos os elogios e imortalidade. O que achei estranho – Drummond já havia alertado sobre o perigo – foi a afirmação de se tratar do principal escritor brasileiro vivo. Não precisava. Poderia ser algo assim: “Um dos principais...” Todos os dias perdemos escritores incríveis, maravilhosos e imortais. Conhecidos e desconhecidos. Precisava dizer isso? Talvez não. E mais: o assunto do centro espírita comunicando-se por IA com escritores mortos promete briga, confusão e inveja. Ou não? O papel aceita tudo! O inferno e o céu também. No mais, vou comprar o livro do poeta Augusto de Campos. E, se possível, com autógrafo.   

João Scortecci  

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MIÚDOS DE FRANGO, FARINHA DE MANDIOCA E OVOS / JOÃO SCORTECCI

Menino de tudo, isso no Ceará dos anos 1960, comia ovo frito, farinha de mandioca e pão. Isso e mais nada. Mamãe Nilce, desesperada, tentava de tudo. Sem sucesso. Dizia sempre: Você precisa comer peixe, verdura, frutas! Não adiantava. Não descia. Macarrão, vez ou outra, com molho branco e queijo ralado. Adorava bolo de assadeira com cobertura de chocolate e pudim de leite. Feijão, arroz, carne: nem pensar! Odiava bife à rolê, panqueca de carne moída e torta de legumes, especialidades da minha mãe. Foi na casa de um amigo de rua que provei miúdos de galinha cozido: coração, fígado e moela! Adorei. Mãe faz miúdo! Ela fez. Comi tudo, com farinha. Foi assim no melhor da minha infância. Fui criado na base de ovo, farinha de mandioca e miúdos! Lembro do dia que a casa caiu e eu quase morri de tristeza e desgosto. Dia dos infernos! Um crápula me disse: sabia que ovo faz mal? Dá aterosclerose, gordura nas artérias do coração, infarto, AVC e morte súbita. Insistiu. Verdade? Sim. Naquele dia comi apenas um ovo e farinha. Diziam, na época, que farinha absorvia a gordura. Nunca procurei saber. Naquele ano ruim de tudo o meu avô paterno Batista, o Batista da Light, morreu. Eu o amava. Morreu demente, tinha aterosclerose e a cabeça nas nuvens. Adorava toucinho, feijão e farinha. Sofri muito. Isso no seu prato é coração de galinha? Sim. O prato estava cheio. O crápula – o mesmo que disse que ovo entupia as artérias do coração - contou aos céus: 33 corações! No seu prato estão 33 galinhas mortas. Sabia? Sim, respondi. Na verdade nunca, até então, havia pensado no assunto. Palitei 5 corações e depois desisti. Fiquei alguns meses comendo apenas um ovo, farinha e nenhum coração de galinha. Malvadeza. Isso não se faz com uma criança. Nunca! Com o tempo - no Serviço Militar obrigatório e já morando em São Paulo - aprendi a comer de tudo. Hoje adoro bife à rolê, panqueca de carne e torta de legumes. E mais: ovos, farinha de mandioca e – vez por outra – miúdos. O crápula sumiu e nunca mais soube dele. Escafedeu-se! Quando a saudade do meu avô Batista aperta o coração, como feijão gordo, toucinho e farinha de mandioca. Ele dizia, sempre: morte boa é a do coração! Rápida e inesperada! O resto é dor e sofrimento. Malvadezas da vida!

João Scortecci


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OUTONO NA JANELA / JOÃO SCORTECCI

Das alucinações da manhã. Dos delírios de outono. Lugar real em lugar algum. Febril e suas reservas. Minha alma escreve. Lá fora uma multidão de ausentes. Silêncio temporal. No canteiro de cunhas, cravado no chão do concreto, uma flor de asfalto. Quase jardim. Resiste. Observo-a: logo existe! Sólida natureza. Até quando? Desconfio. Na esquizofrenia da janela um passarinho se agita no vidro. Liberta-te! Liberta-te! Ainda que tardia! Asas de fuga, papo amarelo, cabeça veloz, no norte de todas as direções. Gosto deles. São inquietos e leves. Quer voar, ir embora, voar. Algo - o quê? – o guarda perto da razão. Rupturas? Talvez. Alucinações no silêncio mágico do desejo matinal. Outono de delírios. Dono de si – o pássaro - abraça o real e um lugar de calmaria na janela. Ele me ocupa. Ocupa toda a rua, ainda deserta. Nós: estado febril, de cunhas e miragens. Alucinações da hora. E a vida - como ela é - segue o seu caminho no outono da janela. Logo existe! 

João Scortecci

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AZUL É A COR DA POESIA E DA FLOR DOS POETAS / JOÃO SCORTECCI

O poeta, místico e filósofo alemão Novalis (Georg Philipp Friedrich von Hardenberg, 1772-1801) é um dos mais importantes representantes do primeiro romantismo alemão do final do século XVIII. Por meio de sua inacabada história de amadurecimento, intitulada “Heinrich von Ofterdingen” (1802), Novalis criou um dos símbolos mais duráveis do movimento romântico: a flor azul. Blaue Blume significa desejo, amor e a luta metafísica pelo Infinito, simbolizando o anseio pela busca de um ideal inalcançável e de uma unidade perdida, e, ainda, a esperança pela reunião num paraíso celeste e a revelação misteriosa da beleza das coisas, que desafia o racionalismo e é comunicada na arte. Gosto desbragadamente do alemão Novalis! Além de ser um símbolo da nostalgia romântica, a flor azul é associada ao místico, ao ato de conquistar algo impossível, ao que é inatingível. E pode também ser associada aos momentos de luto e morte. Percebi Lobélia ainda menina-moça. Uma herbácea pálida e triste. Nativa da África do Sul, da família Campanulaceae, que imigrou para o Brasil no início do ano de 1972. Lobélia gostava de escrever poesia e carregava nos olhos de moça, um azul roxo de pétalas. Praticava - no cenário urbano – desconfianças e versos inacabados. Coisas de poeta! Carregava no corpo – inadvertidamente – papel, caneta e perfume da noite. Escrevia e vigiava o silêncio do Largo da igreja de Santa Cecília, em São Paulo. Escolhia suas próprias sombras e despertava – quando desejava – paixões alheias. Foi, na época, o meu melhor amor. Sobrevivia cunhada na terra seca do canteiro no paredão da igreja. Única Belíssima! Quando chegou o início do outono, secou e desapareceu na morte. Foi um luto urbano, trágico e dolorido. Outro dia – reescrevendo Novalis – lembrei-me de Lobélia, a flor azul. Não estava mais lá – esquecida – em lugar algum. Havia partido de vez. Nem sinal de aviso do passado. Nada. Encontrei – foi o que me deram de urbano – um piso de concreto, que cobria todo o canteiro. Tristeza. No ar da noite, um forte cheiro de urina humana. Nada do poeta Novalis e muito menos de Lobélia, a flor azul do ideal inalcançável. Sempre.

João Scortecci


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DALTON O CROMOSSOMO X / JOÃO SCORTECCI

O químico e físico John Dalton (1766 - 1844) nasceu em Eaglesfield, uma pequena cidade na Escócia. Não o conhecia – confesso – e nunca tinha ouvido falar sobre sua pessoa, inventos e descobertas. Cheguei até John Dalton lendo sobre “discromatopsia”, defeito na visão de algumas cores e incapacidade de percebê-las, no todo ou em parte. É o meu caso, com as cores: azul, cinza, verde, roxo e marrom. Acordo zoado! Essas cores desaparecem: somem da minha razão! A doideira costuma durar de três a quatro horas. Acontece também – mais raramente – no final do dia, na hora do pôr do sol, quando tudo fica um imenso painel acinzentado. Impossível dirigir, ler e escrever. A ciência diz que é defeito no cromossomo X, responsável pela guarda das razões hereditárias e das mutações da natureza. Das 3.200 doenças hereditárias identificadas até hoje, 307 podem ser atribuídas à ocorrência de mutações ou falhas no cromossomo X, as quais interrompem a produção de algumas proteínas essenciais para o bom funcionamento do organismo. Passei alguns vexames quando criança – sapatos, roupas, meias, pinturas, plantas e frutas – e só descobri que existia algo de errado, no ano de 1976, quando no serviço militar obrigatório. A cor verde-oliva dos uniformes militares parecia cáqui, igual à do uniforme dos escoteiros. Mesmo assim, tornei-me motorista e servi no BG - 2º Batalhão de Guardas, Parque D. Pedro II e no QG do II Exército, no Ibirapuera. É engraçado o fenômeno do reencontro com as cores da luz: “alguém” liga o botão no meu cérebro, e eu – do nada – começo a enxergar colorido. Os daltônicos não enxergam todos do mesmo jeito. Há três tipos básicos de daltonismos, que também variam na intensidade. São eles: pronatomalia, deuteranomalia e tritanomalia. Eu sofro de tritanomalia. É o que dizem. John Dalton também sofria de daltonismo, como passou a ser denominado o problema de visão, depois que esse cientista publicou, em 1794, um estudo revelando que tinha dificuldade para distinguir a cor verde da cor vermelha. Seus olhos – depois de morto – foram removidos para fins de estudo. Além de Dalton, alguns daltônicos famosos são: Paul Newman, Bill Clinton, Mark Zuckerberg, Keanu Reeves e o Príncipe William. Digo sempre: não acreditem nunca no que vejo! Quando quero ter certeza de algo importante uso os olhos do coração. 

João Scortecci


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LANCES DORIDOS DO POETA LUIS GAMA / JOÃO SCORTECCI

Em carta do ano de 1880, intitulada “Lances doridos”, do poeta e jornalista Luis Gama (Luís Gonzaga Pinto da Gama, 1830 - 1882), patrono da Abolição da Escravidão do Brasil,  enviada para o advogado, jornalista, magistrado e escritor Lúcio de Mendonça (1854 - 1909), um dos idealizadores da Academia Brasileira de Letras, sobre sua mãe Luísa Mahin, ex-escrava de origem africana, radicada no Brasil, que teria tomado parte na articulação dos levantes de escravos que sacudiram a Província da Bahia, nas primeiras décadas do século XIX: “Sou filho natural de uma negra, africana livre, da Costa Mina (Nagô de Nação) de nome Luísa Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã. Minha mãe era baixa de estatura, magra, bonita, a cor era de um preto retinto e sem lustro, tinha os dentes alvíssimos como a neve, era muito altiva, insofrida e vingativa. Dava-se ao comércio: era quitandeira, muito laboriosa, e mais de uma vez, na Bahia, foi presa como suspeita de envolver-se em planos de insurreições de escravos, que não tiveram efeito. Era dotada de atividade. Em 1837, depois da Revolução do dr. Sabino, na Bahia, veio ela ao Rio de Janeiro e nunca mais voltou. Procurei-a em 1847, em 1856 e em 1861, na Corte, sem que a pudesse encontrar. Em 1862, soube, por uns pretos minas que  conheciam-na e que deram-me sinais certos, que ela, acompanhada de malungos desordeiros, em uma “casa de dar fortuna”, em 1838, fora posta em prisão; e que tanto ela como os seus companheiros desapareceram. Era opinião dos meus informantes que esses amotinados fossem mandados pôr fora pelo governo, que, nesse tempo, tratava rigorosamente os africanos livres, tidos como provocadores. Nada mais pude alcançar a respeito dela.” Luísa Mahin era realmente uma mulher muito bonita. Sobre sua beleza Luís Gama escreveu: “Era mui bela e formosa, Era a mais linda pretinha, Da adusta Líbia rainha”. Vez por outra – quando de passagem por Brasília – vou visitá-lo na Praça dos Três Poderes.  Abro o livro de aço do Panteão da Pátria e o leio na história. 

João Scortecci


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DAS FACETAS DA DEUSA JUNO / JOÃO SCORTECCI

Das facetas da deusa Juno. As “caras” guardo no cofre do porquinho. As “coroas” eu deixo circular, livremente. Sempre foi assim. Aprendi o jogo da sorte com os ensinamentos do epíteto do Moneta, a avisadora. Na minha coleção de moedas antigas tenho raridades cunhadas no cume do Monte Capitolino. Isso na Roma antiga. Foi nessa época que conheci a deusa Juno. A “cara” que ela me deu de presente guardo até hoje. Cara é Cara, disse ela. Prefira - sempre - as faces e os perfis, explicou. Elas são transparentes e sinceras. São caras e únicas. Talismãs! Esqueça as “coroas” e seus Reis de pedra. São mentirosos, cruéis e falsos. E dão azar! Mesmo achando Juno uma doida de cobre e níquel sempre fiz a minha parte no trato. Quando o cofre do porquinho enche de “caras” trato de esvaziá-lo pagando o almoço do dia. Uma vez sobrou de troco R$ 3,20. A moça do caixa devolveu tudo em “coroas”. Isso não se faz, protestei. A deusa Juno deve ter ficado triste. Acontece. Em respeito ao epíteto nunca mais voltei naquela casa. Rigidez monetária! Não sou supersticioso. Só não gosto de brincar com a sorte. 

João Scortecci

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PROVA DE HUMANIDADE REPLICANTE / JOÃO SCORTECCI

Prova de vida eu sei o que é. Sou aposentado e uma vez por ano, no mês de agosto, vou até uma agencia do banco do Brasil, onde tenho conta e faço a comprovação de vida mostrando documento com foto e olhando amorosamente nos olhos do servidor atendente. Constrangedor, sempre. Sei das fraudes. E também da importância. Hoje lendo sobre “Avanço da inteligência artificial exige forma de verificação humana anônima e segura” descobri que logo vamos precisar também de “Prova de humanidade”. E que até já existe um APP que cuida do assunto. Assustador! O tal protocolo visa criar infraestrutura que permite diferenciar humanos de robôs em interações e operações digitais. Sabemos – não é novidade pra ninguém – que robôs comentam posts nas redes sociais, atendem clientes desavisados, desafiam adversários em jogos online e até respondem cartas de amor em blogs de relacionamentos. Tem de tudo. A atividade deles é intensa que chega a dominar mais da metade do fluxo da internet. O cenário é devastador. O tal APP atesta por meio da biometria da íris, prova de humanidade: segura, anônima e privada, que você é um ser humano único. Sem cópias ou fraudes. Aqui com os meus neurais: Operei de catarata, dos dois olhos, perdi as minhas íris? Dr. Google diz que não. Na cabeça imagens do filme Blade Runner - O Caçador de Androides (1982), trama de ficção científica que acontece no século 21 - já estamos nele - onde uma corporação desenvolve clones humanos - identificados como Replicantes - para serem usados como escravos em colônias fora da Terra. Um grupo de Replicantes foge e passam a viver, disfarçados, na cidade de Los Angeles. Isso tudo no futuro ano de 2019. Detalhe: Já estamos no ano de 2025. Um ex-policial cruel e desumano é então contratado para caçar os simpáticos e eficientes robôs Replicantes. Não baixei ainda o APP. Estou ainda na fase de ficar indignado com a necessidade anual de provar que ainda estou vivo. Implicância tem limite. Problema meu!   

João Scortecci







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SOBRE RADICAIS LIVRES, MORFEMAS E MAÇÃS

A palavra “matar” anda solta nos noticiários. Está em tudo que é lugar. Até nos pensamentos e ideias de paz. Estava lendo sobre ismos - sufixo que exprime a ideia de fenômeno linguístico - para um livro que estou - tentando - escrevendo e acabei chegando aos morfemas - menor parte, dotada de significado, que constitui uma palavra - também conhecido como radical, que é o núcleo que abriga a significação externa da palavra. Complicado, né? Também acho. Perdi tempo nos sufixos verbais. Ma (mal) + a(r) de afastamento? Afastar o mal? Talvez. Cadê o meu amigo Pasquale? Naquele dia de festa ficamos juntos na foto, no papo furado e acabei esquecendo de perguntar-lhe sobre os "ismos", os "fonemas" e os "radicais livres". Acontece. A história de hoje sobre "matar" me fez lembrar de um texto que escrevi no início dos anos 1980 para a empresa japonesa Yakult, sobre maçãs. Má - que se opõe ao que é bom; ruim + sã - saudável, bom. No final do texto, uma mensagem de impacto: "Tudo depende das nossas escolhas!" Algo assim. Texto impresso num cartão e colado na tampa da caixa de maçãs. O bom do serviço não era o dinheiro extra, que pingava todo ano. O gostoso era receber, de presente, uma caixa com doze maçãs, tipo exportação. Maravilhosas. Era matar ali mesmo, de felicidade, gula e salivação. Hoje - não sei a razão - não gosto mais de maçãs. Dualidades? Talvez. As maçãs fazem parte de um passado de sufixos verbais, radicais livres e morfemas. Sobre o livro que estou - estava - escrevendo, continua parado de vez. 

João Scortecci  

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PANIC BUYING: DA ÉPOCA DA COVID 19

Das manadas. É o chamado "panic buying" ou - ao pé da letra - compras motivadas pelo pânico, algo assim. Confesso: a panic buying do papel higiênico é coisa de doido e virou febre. É o assunto. Tenho um primo queridíssimo que sofre do “troço”. Sempre que entra em um supermercado compra um fardo de papel higiênico, precisando ou não. Fez isso na minha presença algumas vezes. Perguntei-lhe, então: Anda faltando papel higiênico na praça? Não. Respondeu-me. Mania mesmo. Tenho essa mania desde quando me entendo por gente. Declarou-se. Compreendo, respondi. Pergunta: E o que você faz com os rolos de papel higiênico? Eu os guardo no depósito. Essa história aconteceu em 2015, em Fortaleza, quando ainda não existia a pandemia da Covid 19 e o mundo parecia leve. Hoje, no pior da pandemia, isolado e pensando no que fazer da vida, fiquei sabendo das “manadas” por papel higiênico. Qual a razão? Quis saber. Nada. Foi quando lembrei-me da história maluca do meu primo. Aqui com os meus intestinos: ligo ou não para o meu primo? Melhor não. O que faço? Na dúvida comprei um fardo de 60 rolos. Continuo pensando no meu primo. Tenho certeza que ele vai ler esse post e me ligar "emputecido" da vida. Fazer o quê? Papel higiênico aceita tudo. 

João Scortecci

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PANDEMIA DA COVID 2020

Avós e netos. Reserva ou crueldade? Dói. Das ausências de pele e suas imposições do ato do convívio. Das gerações do alfabeto e dos conflitos da clausura. Nós avós - jovens e idosos - somos os voluntários do acolhimento, do fraterno, das fraldas, das cólicas, das mamadeiras, das brincadeiras do nada, das primeiras leituras e dos sorrisos da inocência plena. Somos voluntários, sempre. Aceitamos perdas, dores e sofrimento. E o cansaço, claro. Aceitamos o menor abraço, o não colo, o não aperto, o não cheiro no cangote, o confinamento. Buscamos o avô cavalinho, o aportar das dobraduras de papel, a guarda dos lápis de colorir, os brinquedos espalhados e até o jogar-se no chão e rolar feito criança. Buscamos! Não aceitamos o distanciamento. Isso nunca! Eles podem nos matar! É o que dizem. Provavelmente sim. Não nos poupem, por favor. Nós avós somos Bombril, Brastemp e Super-heróis, sempre. Morreremos pelos filhos, morreremos pelos netos. Morreremos!

João Scortecci

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ANJO TORTO QUE ASSOMBRA A ALMA

Anjo torto. Liberto e vazio. Arrasta suas asas e varre. Varre ossos, varre almas, varre tudo e todos. Varre! Sem uma direção, sem um norte, perdido. Pobre de nós os escolhidos. Provações? No céu: as tragédias. No chão, as dores. No ar, o cheiro azedo de pus: seroso, opaco, mortal. Quantas feridas! Quantas aflições. Espelho das cegueiras! Pobre país, o nosso. Pobre mundo, de todos. Somos o grito dos órfãos, o silêncio dos excluídos, a morte. Cadê a esperança prometida? O exílio feliz? Cadê o justo de nós? O escritor Bell (Lindolf Bell, 1938-1998) um dia nos disse: “Somos a geração das crianças traídas!” Nas catequeses, o sofrimento dói. Telhado de vidro: quebra-te, de vez! Chegou a hora. Na escuta do coração o derradeiro poema: Anjo torto, liberto e vazio. Meu país, nosso país. Infinita dor. O que nos assola: medo das águas, das enchentes, do fogo, da fome, da guerra, das iras. Penso nos filhos. Penso nos netos. Pobre Brasil torto e irônico. Falso? Talvez. Covardia dos demônios! Minha alma sofre, mais que sempre. 

João Scortecci


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AINDA ESTAMOS AQUI / JOÃO SCORTECCI

Assisti ao filme. Eu e mais de 5 milhões de pessoas. Triste história de luta pela democracia do país e violência. O Brasil amadureceu e as duras penas: sobreviveu. Os corações estão apaixonados pela atriz Fernanda Torres e, o que ela, hoje, representa para todos: Não desistir, nunca! Quando o mundo fica assim: complicado e trágico, muitos, começam a acreditar que estamos – mais uma vez – perto do fim. Não poderia ser diferente. O medo é um inimigo poderoso e cruel. Pergunto: qual fim? O mundo – vasto mundo – anda perplexo e muito assustado, com os gatilhos, que assolam o espírito da alma humana. Depois, mais ainda, da reeleição do presidente americano, Donald Trump - e suas malvadezas maquiavélicas -, bateu pânico geral. E, mais uma vez, o fim. Qual fim? Insisto. Assustados, mais ainda, como o apoio que o presidente Donald Trump recebeu dos “donos do mundo”, os meninos das big techs, que, magnânimos, controlam a Internet, as redes sociais, as comunicações, os satélites e as viagens espaciais. Lembro-me, que, no ano 1986, ainda acadêmico, quando da Catástrofe de Chernobil, no norte da Ucrânia, o acidente nuclear no reator nº 4 da Usina, assustou o mundo. É o fim, foi o que disseram, na época. E aquele mundo dos infernos, teve que modificar-se, adaptar-se, transformar-se, até encontrar, então, o seu novo caminho: seguro e eficiente. De tempos em tempos, a roda gira e a sorte muda. Hoje a energia nuclear é segura, que oferece menos risco. O ano de 2015 começou assim: apocalíptico e perigoso. Não será um ano fácil. Juros e dólar altos, inflação, corrupção, polarização e insegurança jurídica, nos perseguem. Natureza humana? Talvez. A dimensão do mundo não pode ser um espelho do momento histórico. Tempos de paz e prosperidade não podem nos fazer amar a natureza humana. Tempos de guerra, desgraça e injustiça, não podem tirar nossa paz e esperança. Ainda estamos aqui. Até quando? Não sei. 

João Scortecci 

Editorial Revista Abigraf março de 2025.     


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CRIPTOANALISTA EM TEMPOS DE AI / JOÃO SCORTECCI

Outro dia - não faz muito tempo - conheci um garoto, 13 anos, talvez, que no futuro quer ser um Criptoanalista, um cientista da computação, algo assim. Olhei para o seu pai, amigo das letras, ele, de pronto, respondeu-me: Não tenho nada com isso! Lavou as mãos. Tentei conversar mais com o garoto, sem sucesso. Estava abduzido num jogo no computador e eu estava, literalmente, atrapalhando. Criptoanalista é a arte de tentar descobrir o texto cifrado e/ou a lógica utilizada em sua encriptação. Um descobridor de chaves! Algo assim. Meu Pai Luiz tinha, sempre, na ponta da língua, duas chaves para tudo: “Amanhã resolvo o seu caso!” e “Problema seu!”. Odiávamos. Com tempo descobri que para “decodificá-lo” precisa primeiro chegar de leve, manso, limpar o sangue, controlar toda ansiedade da vida. Na raça, de supetão, não adiantava. Pai preciso comprar uma bola de couro nova! E ele respondia: Amanhã resolvo o seu caso! Mas a bola furou! E ele retrucava, sorrindo: Problema seu! Queria morrer! O segredo veio com o tempo. Sentar ao seu lado e esperar uma eternidade, segurando nas mãos a bola de couro furada. Uma hora - do nada - papai saia do engodo e sentenciava: Filho, você precisa de uma bola nova! Simples assim. Tento imitá-lo. Não é fácil. Alan Mathison Turing (1912 – 1954) foi um matemático, um cientista da computação, um criptoanalista, filósofo e biólogo teórico. Foi influente no desenvolvimento da moderna ciência da computação teórica, proporcionando uma formalização dos conceitos de algoritmo e computação com a máquina de Turing, que pode ser considerada na história um modelo de um computador de uso geral. É considerado o pai da ciência da computação teórica e da inteligência artificial. Durante a Segunda Guerra desempenhou um papel crucial na quebra de mensagens codificadas - configurações para a máquina Enigma -, que permitiram aos Aliados derrotar os nazistas em muitos compromissos cruciais, incluindo a Batalha do Atlântico. Qual o seu nome? Perguntei. Alan, respondeu. O pai, que nos observada, insistiu: não tenho nada com isso. O nome foi exigência da mãe. Problema seu! Respondi. Até hoje o amigo das letras me pergunta o que eu quis dizer com "o problema é seu". Respondo, sempre: Amanhã resolvo o seu caso! 

João Scortecci


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GEORGE ORWELL E OS INFLUENCIADORES DIGITAIS DO HOJE / JOÃO SCORTECCI

Lendo sobre “influenciadores digitais” lembrei-me do escritor russo Eugene Zamiatin, autor do romance distópico “Nós”. Eugene (Evgéni Ivánovitch Zamiátin, 1884-1937) foi um influenciador literário. E dos bons! Um gênio. Com sua obra “Nós” influenciou a criatividade de escritores da ficção científica como Aldous Huxley (“Admirável Mundo Novo”), George Orwell (“1984”) e Ayn Rand (“Anthem”). Três ícones da ficção! Tenho minha lista “dos escolhidos”, fomentada desde os anos 1970, quando li de tudo. São eles: Isaac Asimov (“Eu, Robô”), Arthur C. Clarke (“2001: uma odisseia no espaço”), Ray Brandbury (“Fahrenheit 451”), Edmund Cooper (“A Humanidade Artificial”) e George Orwell, escritor e jornalista inglês, nascido na Índia Britânica, autor do distópico “Nineteen Eighty-Four” (“1984”), romance escrito em 1949, em que se narra a vida sufocante de indivíduos “aprisionados” num sistema de opressão e autoritarismo pelo líder supremo do Partido, intitulado de “Grande Irmão”, pela vigilância tecnológica da “teletela”, uma espécie de TV que espia os cidadãos, devassando a privacidade de todos, alegando tratar-se de uma questão de segurança. Algo assim. Quase oito décadas depois o que temos: a ficção virou realidade! O “Grande Irmão” nos vigia, nos assola e nos escraviza. Voltando aos “influenciadores digitais” observo por eles do uso de uma “novilíngua” ou uma “novafala”, como a usada pelo “Grande Irmão” no distópico “1984”, de Orwell. Coincidência? Talvez. Depois que reli a obra “1984" passei, então, a chamar o “monitor” do meu PC - dispositivo físico que observa, supervisiona, controla ou verifica operações de um sistema eletrônico - de “teletela”. Nos vigiamos, dia e noite. Rod Serling (1924-1975) - roteirista norte-americano, criador da série “The Twilight Zone” – escreveu sobre fantasia e ficção científica: “Fantasia é o impossível tornado provável. Ficção científica é o improvável tornado possível.” George Orwell, o visionário - nascido Eric Arthur Blair, (1903-1950) - morreu jovem, em Londres, de tuberculose, em 21 de janeiro de 1950, aos 46 anos de idade. 

João Scortecci
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FERNANDO GASPARIAN: ALGUNS ANOS DEPOIS! / JOÃO SCORTECCI

Conheci o editor e livreiro Fernando Gasparian (1930-2006) e o seu filho caçula Marcus, no final dos anos 1990, na gestão do editor e gráfico Altair Ferreira Brasil (1995-1999), então presidente da Câmara Brasileira do Livro, na cidade de São Paulo. Alguém teria dito: “Gasparian é um doido!”. Algo assim. Descobri, com o tempo, tratar-se de uma pessoa querida por muitos, respeitada, influente no mercado editorial brasileiro. Foi editor das obras de Fernando Henrique Cardoso, Érico Veríssimo, Celso Furtado, Antônio Callado, Oscar Niemeyer, Francisco Weffort, Paulo Freire e outros. Ex-deputado federal e empresário do ramo têxtil, Gasparian fundou nos anos 1970 o jornal “Opinião” (1971-1975) e a revista “Argumento”, focos de resistência à ditadura militar brasileira. Em 1973, assumiu a editora Paz e Terra, referência no meio acadêmico nas áreas de filosofia, sociologia e ciência política, fundada em 1965, pelo editor Ênio Silveira, também fundador da Civilização Brasileira. Em 1978, com sua esposa Dalva Funaro, Gasparian criou a Livraria Argumento, especializada em livros sobre política, economia e artes. A livraria funcionou inicialmente na cidade de São Paulo, na Rua Oscar Freire, e depois mudou para a cidade do Rio de Janeiro, no Leblon, onde funciona até hoje. Quando editor da Paz e Terra, Gasparian recebeu, das mãos do político e diplomata suíço Jean Ziegler, os originais do livro “Pedagogia do Oprimido”, do educador e filósofo, patrono da educação brasileira, Paulo Freire (Paulo Reglus Neves Freire, 1921-1997), na época exilado no Chile e também perseguido pela ditadura militar brasileira. Mesmo contra tudo e todos, num ato de coragem – loucura, talvez – Gasparian publicou, em 1974, o livro e o divulgou abertamente pelo País. Até hoje, “Pedagogia do Oprimido” continua popular entre educadores no mundo inteiro e é um dos fundamentos da pedagogia crítica com mais de um milhão de cópias vendidas. É o terceiro livro mais citado em trabalhos acadêmicos da área de ciências sociais, em todo o mundo. No filme "Ainda estou aqui" – Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira de 2024, com Fernanda Torres, Selton Mello e grande elenco, dirigido pelo premiadíssimo Walter Salles Júnior –, Fernando Gasparian, Dalva e Helena e Laura, filhas do casal, são personagens presentes na história.  Fernando Gasparian faleceu em 7 de outubro de 2006, aos 76 anos de idade. 

João Scortecci

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