Na infância era assim: “Tudo que não mata engorda!”. Funcionava, acho. Éramos felizes, e o azar não existia. Simples assim: pegar do chão, limpar com a mão, soprar forte e, depois, comer ligeiro. Não me lembro de quando tudo mudou, e essa prática passou a ser algo muito perigoso. “Menino, não pode comer o que cai no chão. Joga fora!” De uma hora pra outra – na infância dos anos 1960 – nasceu, então, o azar, a total falta de sorte, o “deu bobeira”. Atualmente – li sobre isso outro dia – o que de comer cair no chão precisa ser recolhido rapidamente, em até 3 segundos. Será? Fiz isso outro dia e sobrevivi! Era um pão francês com mortadela, queijo e manteiga Aviação. Pulou da minha mão! Peguei ligeiro – soprei com força – e comi feliz. Dudu – meu Fox – ajudou, lambendo o chão. Sorte a nossa! Lendo sobre o famoso peixe com batatas, vendido na Inglaterra, envolto em papel jornal, conhecido como “fish and chips” – peixe branco, bacalhau ou arinca, empanado e frito, servido com batatas fritas, sal e vinagre –, soube que esse prato foi inventado no final do século XIX, com o peixe embrulhado em folhas de jornal, servindo como isolante térmico e absorvente de gordura. Um tremendo sucesso. Depois, a partir da década de 1980, caiu em desgraça por questões de higiene e porque a tinta do jornal foi considerada de alta toxicidade pelo chumbo. Mudaram a tinha – hoje à base de óleo de soja – de baixa toxidade. Embora a imagem do jornal seja icônica, hoje em dia o peixe é embrulhado em papel impermeável à gordura ou servido em caixas de papelão. Confesso: perdeu a graça! A primeira loja “fish and chips”, a de Londres, foi do imigrante judeu Joseph Malin (1844 – 1926), no ano da graça de 1860. Malin, poeta, vegetariano e defensor da temperança – abstinência total do consumo de bebidas alcoólicas – comia, quase que diariamente, “peixe frito”, embrulhado em papel jornal e pasmem: viveu feliz até os 82 anos de idade. O “fish and chips” é considerado um dos pratos mais famosos e tradicionais do Reino Unido. No Ceará dos anos 1960, o peixe fresco era vendido nas ruas da cidade. O vendedor carregava os peixes numa vara com cordinhas de peixes nas extremidades. Cortava e limpava o pedido ali mesmo, no chão da calçada. Depois, embrulhava no papel jornal. Pronto! Do mesmo modo acontecia a venda de miúdos: fígado de boi, rabada, miolo, língua e tripa. Os vendedores carregavam tudo dentro de uma caixa de madeira na cabeça. É dessa época a minha paixão por pratos com tripa, miolo e rabo de boi. Éramos felizes, e o azar não existia. A vida, naquela época, era de baixa toxidade.
João Scortecci