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ALEXIA, A MENINA DOS OLHOS / JOÃO SCORTECCI

Eu sou mesmo uma lesma. Ando sobre o abdômen e gosto de coçar o umbigo. Alexia fez contato no ano passado. No mês de setembro. Escreveu: Quem é você? Apenas isso. Não quis bloquear, de pronto. Pensei, na época: pode ser uma autora procurando informações sobre publicação de livro, algo assim. Escrevi: Bom dia. Diga! Silêncio. Alguns dias depois outra pergunta: você é editor de livros? Sim. Respondi. O nosso monólogo continuou igual: vazio e pobre. Em novembro ela escreveu, finalmente: Meu nome é Alexia. Insisti, então: Diga! E assim ficou: silêncio cruel. Mostrei o papo cabeça para um amigo hacker, que no passado, foi um soldado do crimes cibernéticos. Depois, do nada, encontrou um amor, uma Juíza Criminal, alguns anos mais velha que ele e, então, entrou na linha. Ajustou-se! Hoje ele trabalha para um escritório de detetives investigando fraudes, golpes e adultérios. A sua história virou livro e no lançamento – num barzinho da Zona Leste de São Paulo - lotou de ciberpiratas. Confesso: foi divertido. Conheci no lançamento o “B” e também a “Flor”, dupla de hackers da pesada. Famosos. Pedi uma foto com eles: "No flash!" Meu amigo hacker olhou as mensagens de Alexia e me disse, de pronto: Parece zoada de robô! Deleta! Fiquei triste. Até então Alexia era prioridade na ordem do dia. Lendo sobre robôs na Internet fiquei sabendo que eles fazem de tudo: comentam posts nas redes sociais, atendem clientes, desafiam adversários em jogos online. A atividade deles é tão intensa que chega a dominar mais da metade do fluxo da internet. Seu comportamento é tão semelhante ao dos humanos que fica cada vez mais difícil saber se estamos interagindo com uma pessoa ou uma máquina. Escrevi, então: Alexia você é um Robô? Algumas horas depois ela respondeu: Sou uma máquina inteligente! Insisti: O que você quer de mim? Perguntei. "Nada". Respondeu. Você é uma lesma! Anda sobre o abdômen e não sabe interagir. "Um inútil". Agradeci - educadamente - e deletei nossas frações. Ontem, curtindo os netos, num almoço de família, alguém gritou: Alexia! Alexia! E, do nada, as crianças da casa, todas, olharam juntas, na mesma direção. Sincronia cibernética, algo assim. Já disse: gosto de coçar o umbigo. E fazer do tempo os meus pecados. 

João Scortecci