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AZUL É A COR DA POESIA E DA FLOR DOS POETAS / JOÃO SCORTECCI

O poeta, místico e filósofo alemão Novalis (Georg Philipp Friedrich von Hardenberg, 1772-1801) é um dos mais importantes representantes do primeiro romantismo alemão do final do século XVIII. Por meio de sua inacabada história de amadurecimento, intitulada “Heinrich von Ofterdingen” (1802), Novalis criou um dos símbolos mais duráveis do movimento romântico: a flor azul. Blaue Blume significa desejo, amor e a luta metafísica pelo Infinito, simbolizando o anseio pela busca de um ideal inalcançável e de uma unidade perdida, e, ainda, a esperança pela reunião num paraíso celeste e a revelação misteriosa da beleza das coisas, que desafia o racionalismo e é comunicada na arte. Gosto desbragadamente do alemão Novalis! Além de ser um símbolo da nostalgia romântica, a flor azul é associada ao místico, ao ato de conquistar algo impossível, ao que é inatingível. E pode também ser associada aos momentos de luto e morte. Percebi Lobélia ainda menina-moça. Uma herbácea pálida e triste. Nativa da África do Sul, da família Campanulaceae, que imigrou para o Brasil no início do ano de 1972. Lobélia gostava de escrever poesia e carregava nos olhos de moça, um azul roxo de pétalas. Praticava - no cenário urbano – desconfianças e versos inacabados. Coisas de poeta! Carregava no corpo – inadvertidamente – papel, caneta e perfume da noite. Escrevia e vigiava o silêncio do Largo da igreja de Santa Cecília, em São Paulo. Escolhia suas próprias sombras e despertava – quando desejava – paixões alheias. Foi, na época, o meu melhor amor. Sobrevivia cunhada na terra seca do canteiro no paredão da igreja. Única Belíssima! Quando chegou o início do outono, secou e desapareceu na morte. Foi um luto urbano, trágico e dolorido. Outro dia – reescrevendo Novalis – lembrei-me de Lobélia, a flor azul. Não estava mais lá – esquecida – em lugar algum. Havia partido de vez. Nem sinal de aviso do passado. Nada. Encontrei – foi o que me deram de urbano – um piso de concreto, que cobria todo o canteiro. Tristeza. No ar da noite, um forte cheiro de urina humana. Nada do poeta Novalis e muito menos de Lobélia, a flor azul do ideal inalcançável. Sempre.

João Scortecci