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MIÚDOS DE FRANGO, FARINHA DE MANDIOCA E OVOS / JOÃO SCORTECCI

Menino de tudo, isso no Ceará dos anos 1960, comia ovo frito, farinha de mandioca e pão. Isso e mais nada. Mamãe Nilce, desesperada, tentava de tudo. Sem sucesso. Dizia sempre: Você precisa comer peixe, verdura, frutas! Não adiantava. Não descia. Macarrão, vez ou outra, com molho branco e queijo ralado. Adorava bolo de assadeira com cobertura de chocolate e pudim de leite. Feijão, arroz, carne: nem pensar! Odiava bife à rolê, panqueca de carne moída e torta de legumes, especialidades da minha mãe. Foi na casa de um amigo de rua que provei miúdos de galinha cozido: coração, fígado e moela! Adorei. Mãe faz miúdo! Ela fez. Comi tudo, com farinha. Foi assim no melhor da minha infância. Fui criado na base de ovo, farinha de mandioca e miúdos! Lembro do dia que a casa caiu e eu quase morri de tristeza e desgosto. Dia dos infernos! Um crápula me disse: sabia que ovo faz mal? Dá aterosclerose, gordura nas artérias do coração, infarto, AVC e morte súbita. Insistiu. Verdade? Sim. Naquele dia comi apenas um ovo e farinha. Diziam, na época, que farinha absorvia a gordura. Nunca procurei saber. Naquele ano ruim de tudo o meu avô paterno Batista, o Batista da Light, morreu. Eu o amava. Morreu demente, tinha aterosclerose e a cabeça nas nuvens. Adorava toucinho, feijão e farinha. Sofri muito. Isso no seu prato é coração de galinha? Sim. O prato estava cheio. O crápula – o mesmo que disse que ovo entupia as artérias do coração - contou aos céus: 33 corações! No seu prato estão 33 galinhas mortas. Sabia? Sim, respondi. Na verdade nunca, até então, havia pensado no assunto. Palitei 5 corações e depois desisti. Fiquei alguns meses comendo apenas um ovo, farinha e nenhum coração de galinha. Malvadeza. Isso não se faz com uma criança. Nunca! Com o tempo - no Serviço Militar obrigatório e já morando em São Paulo - aprendi a comer de tudo. Hoje adoro bife à rolê, panqueca de carne e torta de legumes. E mais: ovos, farinha de mandioca e – vez por outra – miúdos. O crápula sumiu e nunca mais soube dele. Escafedeu-se! Quando a saudade do meu avô Batista aperta o coração, como feijão gordo, toucinho e farinha de mandioca. Ele dizia, sempre: morte boa é a do coração! Rápida e inesperada! O resto é dor e sofrimento. Malvadezas da vida!

João Scortecci