Não conheci pessoalmente o escritor e psicanalista italiano, nascido em Milão, radicado no Brasil, Contardo Calligaris (Contardo Luigi Calligaris, 1948 - 2021). Vez por outra lia sua coluna na FOLHA e nelas encontrava - sempre - assuntos interessantes e pertinentes. Anotava. Hoje, 30 de março de 2025, data de 4 anos de sua morte, aos 72 anos de idade. Nas minhas anotações encontrei nota do seu entendimento sobre o sentido da vida. Segue: "O sentido da vida é a própria vida. Isso pode parecer uma total trivialidade - mas, para a maioria das pessoas, é um escândalo. Mas pouquíssimas pessoas conseguem viver pensando que o sentido da vida está na vida e, vou dizer mais, é a própria vida". No romance “O conto do amor” (Companhia das Letras, 2008), Contardo Calligaris, conta a história da visita de Carlo Antonini, psicoterapeuta italiano que vive em Nova York, ao convento de Monte Oliveto Maggiore, fundada em 1313 por São Bernardo Tolomei (1272 - 1348), na Toscana. Ali, Carlo Antonini, depara com algo inusitado: a figura do jovem São Bento, pintada em um dos afrescos da abadia, é parecida com seu pai, que havia morrido doze anos antes. Isso o remete ao próprio motivo de sua ida à Itália: uma estranha conversa que ambos tiveram pouco antes de o pai morrer, quando este revelou ao filho, em tom de confissão, que em outra vida teria sido ajudante do pintor maneirista Sodoma (Giovanni Antonio Bazzi, 1477 - 1549), justamente o autor daquelas imagens. Incrível. Quando adolescente, ainda morando em Fortaleza, minha mãe Nilce, médium, procurou-me e disse: Filho, eu andava preocupada com você. Na verdade aflita. Essa noite eu tive uma visão e um espírito de luz veio e revelou: “Não se preocupe com o João Ricardo. Ele está bem. O seu espírito é forte e tenaz. Ele é Ricardo Coração de Leão”. No início dos anos 2000, já morando em São Paulo, com a ajuda de uma amiga espírita fiz várias seções de regressão espiritual, técnica terapêutica que visa ajudar a pessoa a se desligar de situações traumáticas do passado. Confesso: ajudou-me, muito. Durante anos convivi com os meus heterônimos espirituais. Na época revisitei três outras vidas passadas: Na primeira era um velho agricultor de uma tribo das margens do Rio Nilo, norte do Egito, na segunda um comerciante de especiarias no porto de Vila Velha, final do século XIX, no Espírito Santo e na terceira fui Ricardo I, Ricardo Coração de Leão, guerreiro e líder militar, Rei da Inglaterra de 6 de julho de 1189 até 6 de abril de 1199. Ricardo I morreu de ferimentos provocados por uma flecha que o atingiu no ombro, em abril de 1199. Nas três regressões - não sei a razão - vivenciei a morte física. No Egito fui picado na perna esquerda por uma cobra Naja haje, em Vila Velha, envenenado no Convento da Penha e no corpo de Ricardo I, alvejado por uma flecha. O que ficou: o veneno da cobra adormecendo o meu corpo, as minhas entranhas fervendo com o veneno do cálice e a dor no peito alvejado pela flecha. Depois de morto e acordar do transe: paz, silêncio, luz e imensidão. Ainda sinto medo de cobras, bebidas exóticas de sangue e flechas no coração. Apenas isso. Isso, talvez, explique o sentido da vida, da própria vida: trivialidades da alma.
João Scortecci
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